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Living in Russia: #30 O Mendigo bilingue de St. Petersburgo

St. Petersburgo - Rússia, Fevereiro de 2015
Vou começar la do começo (ah, serio?) porque não consigo resumir as coisas... Anton foi trabalhar e eu fui para a Nevskiy Prospekt  para almoçarmos juntos e depois fui bater perna. Uma coisa que me irrita aqui no inverno é que não tem banquinhos para sentar na rua. Sabe quando você não ta indo pra exatamente lugar nenhum? Ai uma hora cansa de andar? Ai você acha um lugar para sentar pra ver a banda passar? Sabe? Aqui não tem dessas coisas, porque os poucos bancos que eu encontro estão cheios de neve (obvio) ou molhados, maaaaaaas, ontem estava -7 graus e um sozinho que foi suficiente para derreter a neve pra eu poder sentar e fazer nada. 

Enquanto eu estava la vendo essa criança vestida de power ranger azul correr atras das pombas eu vejo um homem se aproximar. Não diria nem bem, nem mal vestido - normal- mas com um olhar bem triste. 
Ele me falou alguma coisa que eu só entendi o извините (izvínítie - com licença), пожалуйста(pajálusta - por favor) - blablablbala 10 рублей (10 rublos). Eu respondi um "Sorry, I don't speak russian"

E para fazer cair meu queixo do chão ele começou a conversar em inglês comigo!

Quantas pessoas eu conheci aqui na Rússia que falam inglês? Quantas vezes eu pedi informação a pessoas que trabalham no metro, ou em alguma loja e ninguém falava inglês? Ai logo a primeira pessoa que eu encontro que fala inglês é o senhor que esta me pedindo 10 rublos na rua.

Ele me contou que era de uma cidade do interior da Rússia, que a mulher ja havia falecido. Que ele veio para St. Petersburgo com a mulher quando ela ainda era viva e que tinha filhos ficaram no interior, que perdeu o contato e hoje em dia tinha vergonha de procura-los. Que ele estava com fome e por isso estava pedindo dinheiro, que já vivia assim a algum tempo. E quando eu o perguntei de como ele tinha aprendido inglês ele disse que não sabia exatamente... que tinha aprendido "por ai..."
Bom, acreditem ou não eu não tinha nem 10 rublos na bolsa. Porque do jeito que eu sou tonta, depois de uma historia dessas eu até levava ele pra morar comigo e ser meu avô russo, mas de verdade eu não tinha, pedi desculpas, desejei boa sorte e ele me disse ao se despedir: GOD BLESS YOU! (Deus te abençoe)

Ai pronto né, foi o suficiente pra eu ficar com um nó na garganta e esse homem na cabeça o resto do dia. Isso foi em torno de 13:00.

Voltei para o trabalho do Anton, contei o que tinha acontecido e ele disse que infelizmente, muito provavelmente ele estava pedindo dinheiro para beber e blablabla. Aquele papo que todo mundo tem, e ok, podia ser que fosse mesmo.

No final da tarde a preguiça de cozinhar nos levou direto para o Burguer King, pedimos nosso lanche e enquanto comíamos e contávamos um para o outro como tinha sido nosso dia, um homem se aproxima da mesa...

Eu quase engasguei com o pedaço de lanche que estava na minha boca quando eu vi que era o mesmo homem que me me pediu os 10 rublos pela manhã.

Gente, St. Petersburg não é uma cidade pequena e o lugar que eu o vi a primeira vez foi do outro lado da cidade, esse Burguer King onde nós estávamos ficava a 3 estações de metro. Ai justo esse, o  mesmo homem que me abordou de manhã, o tal que fala inglês e me contou mais cedo sobre pedaços da sua realidade chega na mesa outra vez. Coincidência?

Eu respondi exatamente igual a primeira vez "Sorry, I don't speak russian" e ele nos devolveu um "ok, have a nice evening".

Chorei né. Porque? Bem, eu nem sei dizer exatamente. O Brasil esta cheio de pessoas passando fome mas talvez pelo fato de eu estar aqui tão longe da minha família e ele também, pelo fato de  lembrar um pouco o meu avô que já faleceu a 2 anos...Talvez pela educação com que ele me abordou e por ter me desejado coisas boas nas duas vezes, porque afinal a gente só deseja para os outros o que a gente carrega com a gente.

O Anton disse que muitas dessas pessoas entram em restaurantes para conseguir dinheiro e ir beber depois mas eu tinha certeza que ele não... Ele devia estar morrendo de fome, já havia passado mais de 6 horas desde a hora que eu o vi, e ele ainda estava perambulando pedindo míseros 10 rublos... Sem contar que deve ser agoniante estar em um lugar que exala cheiro de comida sem poder comer quando se esta com fome.

Ele continuou pedindo dinheiro pelas mesas e sendo ignorado pela maioria das pessoas. Eu fiquei observando... Ele foi ate o caixa com algumas moedas e pediu o que desse para comprar com o que ele tinha, e a mulher falou que não dava nem pra comprar um sorvete. (entendendo com o Anton traduzindo, claro). Nós compramos um lanche e um refrigerante pra ele. Enquanto eu pedia pra moça do caixa, ele que estava do lado abaixou a cabeça e saiu andando sem entender que era pra ele. Eu o chamei e dei o lanche e ele nos olhou quase que inconformado, como se a muito tempo ninguém fizesse uma coisa tao simples como essa pra ele. Ouvi o muito obrigado mais sincero desde que cheguei aqui.

A moça do caixa também ficou olhando boquiaberta, e falou para o Anton que nunca viu ninguém fazer nada parecido. Como se um lanche fosse grande coisa...

Eu não estou contando isso pra pagar de Madre Teresa de Calcuta não, também não estou dizendo que tem que sair dando dinheiro pra todo mundo na rua, nem para sair distribuindo panelão de sopa por ai, mas sim para amar mais e julgar menos. Tem gente que quando vê morador de rua só falta pisar em cima, como se fosse uma coisa, sem historia, sem vida, sem sentimento nenhum... "Amar o Próximo como a si mesmo- ESE, cap XI". Sem contar que ninguém sabe o dia de amanha, e todo mundo aqui tem família e pode um dia precisar de ajuda!
Bem, enquanto eu levantava da mesa e ia até o caixa conheci um outro Russo, que rendeu outra historia na minha vida, mas essa eu conto no próximo postok?
Пока Пока
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About Clara Jikos

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4 comentários:

  1. Aaah que lindo mano ! Eu ando muito chorão também haha (É o Yuri). Eu vejo que as pessoas cada dia que passam estão sem amor sabe ? Cadê aquele espirto humano ? Eu fico de coração cortado tb por mais que eu não conheça o passado da pessoa...enfim , share love <3 não faz mal a ninguém.

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    1. Entao esse negocio de chorar atoa ta ficando feio pro meu lado ja hahhah, as vezes eu vejo qualquer coisa boba ate em desenho animado e choro, eu heim... Navio mexeu comigo hahhaa
      E sim, foi um dos dias mais marcantes pra mim! E sempre acredito que tudo mundo que cruza o nosso caminho tem alguma coisa para nos ensinar!
      Share love!!! <3
      Um beijooo

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  2. Linta atitude! O Anton deve ter ter ficado bem surpreso também haha :**

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    1. Ele ficou mesmo, mas isso foi uma coisa tão simples né? Queria eu poder ajudar de verdade essa gente :D
      Um beijo ;**

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