Chicago-IL, Junho de 2016
Hoje me deparei com uma foto no Facebook que me deixou a pensar. Uma amiga dando os parabéns a irmã. Eu conheci essa amiga quando tinha 17 anos e fazíamos cursinho pré vestibular, éramos inseparáveis, ela um poço de certeza de que iria prestar e passar em logística, eu... Eu não sabia nem o que eu estava fazendo naquela sala de aula. Mas ela era minha melhor amiga e nós dávamos MUITAS RISADAS, eu copiava todas as respostas dela e assim éramos felizes. Eu não queria estar ali, mas também não sabia onde queria estar. Ela estava correndo atras de algo que sempre sonhou viver.
Hoje me deparei com uma foto no Facebook que me deixou a pensar. Uma amiga dando os parabéns a irmã. Eu conheci essa amiga quando tinha 17 anos e fazíamos cursinho pré vestibular, éramos inseparáveis, ela um poço de certeza de que iria prestar e passar em logística, eu... Eu não sabia nem o que eu estava fazendo naquela sala de aula. Mas ela era minha melhor amiga e nós dávamos MUITAS RISADAS, eu copiava todas as respostas dela e assim éramos felizes. Eu não queria estar ali, mas também não sabia onde queria estar. Ela estava correndo atras de algo que sempre sonhou viver.
Todos os finais de semana nós tínhamos simulado e conforme o vestibular se aproximava era possível ver a tensão estampada na testa das pessoas, menos na minha, porque eu nem sabia o que ia prestar.
No meio do ano nós encontramos um bar, pastelzinho de 50 centavos, cerveja barata. PRONTO, eu tinha um motivo para ir ao cursinho. Aquele era meu melhor momento, e pouco a pouco eu já não voltava mais para a aula depois do intervalo. Em algumas semanas eu arrumei um crush e pronto, tudo perfeito, exceto o fato de que eu estava pagando uma fortuna do curso para acabar comendo pasteizinhos no boteco da esquina. Vai ver que é isso, vai ver que meu futuro é abrir uma pastelaria!!! Será?
Ver a foto dessa minha amiga com a irmã me fez lembrar de uma conversa que tivemos. Acontece que a irmã dela era uma pessoa já resolvida na vida. Havia passado na federal de primeira, sem cursinho nem nada, estava formada, trabalhando e ganhando bem, morando sozinha em outra cidade, aquele tipo de vida perfeita que nós fomos ensinados a desejar. Mas, por algum motivo algo parecia não estar bem. Nós estávamos no ônibus quando ouvi pela segunda vez na vida as palavras "Trabalhar em navio". "Minha irmã esta pensando em largar o emprego para trabalhar em navio". Senti a reprovação no olhar dela enquanto dizia aquelas palavras. Como era possível a irmã deixar a vida perfeita que ela estava estudando tanto para também ter? Aquilo não fazia sentido na cabeça dela e fez menos ainda na minha, já que eu não tinha ideia do que realmente estávamos falando.
Ela me explicou meio por cima o que sabia. Viajar o mundo, festas no navio, trabalhar igual escravo, jogar um ótimo salário pra cima, interromper uma carreira de sucesso por uma aventura. Eu concordei, porque realmente, depois de estudar tanto, pra que?! E pelo resto da noite aquilo ficou martelando na minha cabeça. Não necessariamente a ideia de "trabalhar em navio", mas sim o porque de alguém decidir abrir mão de algo que lutou tanto para conseguir.
A primeira vez que ouvi falar sobre navio foi alguns meses atras na minha viagem de formatura. Dei uns beijos no nossa guia e como a adolescente iludida que eu era, já comecei a fazer planos de me casar com o gato e ir morar em Porto Seguro, mas meus planos foram por água abaixo quando ele esmagou meu coração contando que em uma semana estava indo para a Grécia, embarcar em um navio onde ia trabalhar. Fiquei revoltadíssima, ele era o "grande amor da minha viagem de formatura" e estava indo embora para nunca mais voltar. Além do que, ele já trabalhava lá em Porto a 10 anos, via-se de longe que ali ele já estava em casa, conhecia todo mundo, tinha respeito por onde passava, era conhecido como o melhor no que fazia (diga-se de passagem, era mesmo, se é que vocês me entendem). Que diabos que essas pessoas viam nesse tal de "navio", que minhoca que essa gente tinha na cabeça de deixar seus trabalhos tão difíceis de se conseguir? "Loucos", foi como eu os classifiquei.
Como vocês bem sabem eu não prestei aquele vestibular, para dizer a verdade eu nem terminei o cursinho. Minha amiga teve problemas pessoais e decidiu parar o curso, adiou o sonho da vida dela, porque bem... Nem tudo acontece na hora que a gente quer. Fomos ao nosso bar preferido, viramos uma boa dose de pinga as 8 da noite, demos muitas risadas, comemos vários pasteis, nunca mais voltamos naquele colégio e nunca mais nos vimos.
Hoje somos amigas no Facebook, uma vez no ano mandamos mensagens para saber como estão as coisas e bem, as coisas mudaram bastante. Eu me juntei ao time dos "loucos", ela passou em um dos primeiros lugares na federal que sempre quis.
A verdade é que eu nunca pertenci a aquilo tudo, aquele curso não era o meu sonho. Ter um bom salário talvez fosse, mas ter um bom salário em um emprego que eu não desejei ter também não fazia sentido. Eu demorei alguns anos da minha adolescência para entender o porque eu não me encaixava naquele ideal de sonho que a minha amiga tanto almejava. Ela era tão boa em matemática, tão certa de tudo que estava fazendo, que aquilo me deixava ainda mais confusa, mas aos poucos eu fui entendendo que não tinha nada de errado comigo, nem com ela, era só que aquele sonho não era meu. Era dela, da minha mãe, da minha professora de historia que vez ou outra me mandava uma mensagem perguntando como estava o cursinho. O meu sonho não era nem maior nem menor, só era outro. Quando eu finalmente entendi que a resposta que eu buscava não estava naquele lugar foi quando passaram a me chamar de louca. "Ao invés de estudar...", "Não vai aguentar um mês...", e a historia foi passando de pessoa para pessoa. Eu contei a uma amiga, que contou com indignação a outra amiga, que contou pra outra e essa bola de pelo, fez alguém repensar na própria vida, assim como aconteceu comigo, algum tempo atras. Algumas pessoas ouviram a minha historia e se juntaram ao time dos que não buscam mais por respostas, e sim por cada vez mais perguntas. Algumas dessas pessoas não encontraram o que estavam procurando, mas sabe, tudo bem. É importante correr o risco. Se der certo, felicidade. Se não, sabedoria.
Quando eu comecei a juntar as peças do meu quebra cabeça (que ainda esta muuuuuito longe de ser completo), embarquei na maior experiência da minha vida. Um transatlântico gigantesco. Capacidade de 3.800 passageiros, 1.110 pessoas morando na mesma casa de lata que me levou de um continente ao outro em mares nem sempre tão calmos. Entre dias bons e ruins aquela foi a minha grande sacada mas que eu quase deixei escapar por medo do que os outros iriam falar, por medo de ser diferente nesse mundo cheio de pessoas iguais. Aquela entrevista por Skype foi meu maior ato de coragem. Já era a terceira em que eu não aparecia e adiava o inadiável. Naquele dia eu proibi o meu cérebro de pensar, liguei o computador e foi. As vezes na vida, tudo o que precisamos são 20 minuto de coragem insana.
Dali em diante eu não parei mais. Não fiquei rica e também não sou mais decidida que aquela menina que eu era na época do cursinho. Não sei como será a minha vida daqui a 5 anos, e não me preocupo mais porque hoje eu estou feliz. Feliz por ter tido a coragem de embarcar naquele navio, de ir até a Rússia em busca de respostas do coração, feliz de viver o sonho antigo de morar nos EUA, e feliz de escrever esse post assistindo o por do sol na minha cidade preferida, Chicago.
O seu ato de coragem pode levar algum tempo, talvez anos, mas é importante lembrar que o tempo não para, e o medo do desconhecido as vezes faz a gente perder oportunidades incríveis, mas lembra, o novo é SEMPRE melhor. Ouça com atenção a historia do outro, as vezes essa pode vir a ser a sua historia também. Fique atento aos sinais, esse frio na barriga talvez seja só a coragem esfriando os seus medos.
Good Lucky,
See you

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