Grayslake-IL, 02 de abril, Dia Mundial de Concretização ao Autismo.
Eu não falo muito sobre as minhas kids aqui porque não gosto de expô-los tanto, mas hoje sendo o dia do autismo, senti a necessidade de falar sobre, já que eu vivo isso todos os dias a quase um ano.
"A família é ótima, mas as duas crianças são autistas" Foi a primeira "referencia" que eu ouvi sobre a minha host family.
De cara eu achei que era furada, porque o pouco contato que tinha tido com crianças com autismo ou Asperger foram no hotel em que eu trabalhava e me lembro muito bem de não ter conseguido arrancar muitas palavras de uma delas e de querer esganar a outra que não parava de falar um só segundo.
Bom, embora eu tenha trabalhado com crianças quase a vida toda, nunca foi algo que eu gostei. Isso mesmo, eu gosto de criança dos outros, que você vai lá brincar rapidinho e quando chora entrega pra mãe, mas, isso sempre foi o que mais me deu dinheiro no interior e a a única opção viável de viver nos EUA. Ah, e não, isso não muda o fato de eu fazer o meu trabalho muito bem e com muito amor, porque sou totalmente profissional e humana o bastante para saber o meu papel.
Então, acontece que de inicio eu pensei que lidar com dois adolescentes autistas seria muito difícil e até cogitei a ideia de não aceitar a família, mas pensei e repensei um milhão de vezes e mesmo sem saber muito a respeito, vim.
Para a minha surpresa fui recebida no aeroporto com uma placa de "Welcome to Chicago" segurada pelo menino de 12 anos na época e um super abraço da menina de 10. Durante o caminho todo até em casa ela me fez um milhão de perguntas. "Você mora numa fazenda? Como é o nome da sua mãe? E do seu cachorro? E da sua avó? Qual rua você mora?". *Ainda respondo a todas essas perguntas diariamente, quase um ano depois*. Parece que começamos bem, já que eu achei que fosse levar um tempo até conseguirmos conversar.
No dia seguinte o menino, que quase nunca sai de casa, quis por iniciativa dele me mostrar a vizinhança. Paramos no parque, vi a menina rolar na grama, abraçar as arvores, grudar na minha perna com medo do cachorro, dizer oi para todos os vizinhos, fazer amizade com dois meninos que estavam no parque. Enquanto isso o menino e eu ficamos sentados no banco, ele visivelmente impaciente que queria voltar pra casa mas se esforçando para estar ali fora comigo.
Em meus muitos anos de hotel lidando com grupos de 30/50 crianças eu nunca vi crianças tão educadas quanto eles, que levam a louça até a pia, que fazem o homework sem reclamar, que pedem desculpas de coração quando fazem algo de "errado". Claro que o comportamento deles no geral depende do nível de autismo, mas a educação vem de casa e de como são criados.
O nível de autismo deles não é tão alto e eles são completamente diferentes um do outro. A menina vive no mundo da imaginação, onde ela é a princesa e eu sou a melhor amiga da princesa. Ela trança meu cabelo mas quase nunca me deixa trançar o dela e de vez em quando acorda de mau humor porque "a vida é muito injusta de fazer a gente ir pra escola todos os dias" em suas próprias palavras. Por ela viveríamos na rua e falando com todo mundo que estiver passando por nós. Ela pergunta o nome de todo mundo e logo já diz o dela. Adora pular e dançar, as vezes faz os dois juntos. E também adora abraçar, mas não beijava porque não queria pegar germes, porém agora não sai sem me dar um beijo e as vezes até umas lambidas, faz parte. <3


O menino é super inteligente, entende exatamente tudo de computadores e sempre que eu tenho alguma duvida peço a ajuda dele. Ele reclama de ajudar mas fica todo feliz de estar sendo útil. Por ele a gente fica em casa jogando vídeo game dia e noite, noite e dia, o que também não é tão ruim, mas tendo o levar pra fora de vez em quando e ele, mesmo reclamando, vai. Embora super inteligente odeia fazer o homework e as vezes me da um hard time por isso. Odeia trocas de schedule e repete um milhão de vezes a mesma frase, bem alto. Faz planos de ter uma esposa e 7 filhos e passa muito tempo me mostrando a casa que esta "construindo" no computador, onde inclusive tem um quarto para "Au Pair and Friends". Como qualquer outro adolescente as vezes vem umas perguntas meio inesperadas como esses dias que ele cismou de querer saber de onde saem os bebes, além da barriga. Ouço "thanks" para exatamente tudo que faço por ele. As vezes tenho que brigar também, tive que ensinar que não pode se bater quando as coisas dão errado e que as vezes a vida é um saco, mas "guess what?" você tem que continuar vivendo... Ele ouve, reclama, argumenta e daqui a pouco passa. Ele adora todos os tipos de games e me ensinar a jogar o que eu não sei (no caso todos).
Ambos além de todas essas características são extremamente mimados as vezes, como qualquer outra criança, e tem aquele mau humor típico de pré adolescentes, mas sim, eu amo as minhas crianças, mesmo sem gostar tanto de crianças no geral. E sim, eles são perfeitos exatamente do jeitinho que eles são.
Claro que o nível de autismo interfere muito no comportamento das kids, e sei que alguns são muito agressivos e mais difíceis de se aproximar, mas o que eu quero dizer é que se por acaso tiver uma família muito boa com crianças que tenham special needs, não desistam da família só por esse motivo. Sem querer me exibir mas já me exibindo, eu tenho a vida que toda au pair sonhou em ter, e quase abri mão disso por medo de não saber lidar com eles.
Eu aprendi a lidar com eles, e aprendi com eles. Vejo diariamente o incomodo de sentar a mesa do jantar enquanto alguém esta comendo noodles ou tomando sopa, quando alguém cantarola alguma musica, quando eles tem que fazer todo um ritual todas as vezes que vão passar por alguma porta ou quando se sentem obrigados a vestir o casaco metodicamente todos os dias as 8:12 AM. Com tudo isso, eles estão ai, vivendo, fazendo planos, tendo dias bons, outros nem tanto, assim como qualquer um de nós.
Eu não cuido deles, eu sou amiga deles. As vezes, como qualquer outro ser humano, me canso e tenho vontade de sumir e voltar pra minha terra, minha gente, e vez ou outra vocês me verão aqui reclamando da menina que demorou três vidas para tomar banho ou do menino que deu show para não fazer o reading dele, mas se eu pudesse voltar no tempo e tivesse que escolher essa família de novo, eu faria mil vezes, com todos os "defeitos" e manias, já que eu aprendi durante esse ultimo ano que o autismo é apenas uma maneira diferente de ver o mundo com um jeito único de ser.

E quando eles sorriem pra mim, eu sei que é sincero, que é de coração, que é amor, e afinal de contas, e disso que a gente precisa no mundo não é?!
See ya!



Eles são simplesmente lindos...sabe nada é por acaso né, se essas duas figurinhas entraram na sua vida foi para te ensinar a ser ainda mais empática...te tornar alguém melhor...s2
ResponderExcluirTotalmente isso, eu super acredito que tudo acontece com um propósito, e hoje um ano depois eu vejo quanta coisa eu aprendi com esses little monsters, coisas que nenhuma outra criança ou família poderia ter me ensinado 💓 Beijoooos!
ExcluirAdorei as fotos! Parecem de fato ser super cutes! Aqui no Rio eu dei aula durante 2 anos pra uma menina autista e ultra me surpreendi com ela. MEGA inteligente, com memória fotográfica, um amor de pessoa, dedicada e super carinhosa! Também tem seus rituais, suas frases repetitivas e afins, mas jamais trocaria o tempo que tive com ela por qualquer uma oura situação.
ResponderExcluirE incrível não é?! Eles são tão diferentes um do outro e cada um passa uma mensagem tão única que é impossível não amar <3
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